quinta-feira, 31 de março de 2016

BICENTENÁRIO DA PARÓQUIA DE APODI

BICENTENÁRIO DA PARÓQUIA DE APODI
RETROSPECTIVA HISTÓRICA
1766 – 1966

Saudações aos que estiveram à frente dos festejos alusivos ao Bicentenário da Paróquia de Apodi, organizando, dedicando-se de forma atuante, ou de outra maneira, mas que foi importante pela participação, haja vista o sucesso absoluto alcançado no mega evento em Apodi de então.
Ano 2016, 50 anos depois. Saudações estendidas aos que, hoje, se reúnem dando continuidade à comemoração pelos dois séculos e meio de paróquia, a maior data ressaltada do calendário apodiense. De 1966 para cá, meio século transcorrido, só temos que agradecer: primeiro ao Deus pai criador de todas as coisas – louvemo-lo! Segundo, aos que pela fé, amor ao próximo e a sua terra se dedicaram a comemorar os dois séculos de existência da nossa igreja pioneira cristã e, como também, as novas gerações que perpetuam e cultuam a tradição, que se estende desde os tempos primórdios do então surgimento da Missão de São João Batista da Ribeira de Apody. Ensejo este que é de se ressaltar o significado valoroso para formação de uma sociedade cristã e, com a missão catequética, acolhimento de almas, pacificação e civilização dos nativos Paiacus, como bem preceitua as Sagradas Escrituras: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura (Mc, 16,15). A Missão evangelizadora foi iniciada, historicamente, com os abnegados padres jesuítas alemães João Guincel e Felipe Bourel, em janeiro de 1700, no local que se passou a ser conhecido por Córrego das Missões. Tudo se deve aos esforços dos primeiros sacerdotes e religiosos de fé e cumpridores dos seus ideais bíblicos. Engloba-se também frei Fidelis de Padavoli, que, em 1740, “edificou uma pequena ermida de madeira e barro, dedicada a São João Batista, ao norte da lagoa, tendo sido encarregado da construção o português Antônio da Mota Ribeiro”. Finalmente, quanto ao templo, citam frei Ângelo, missionário capuchinho, que construiu o que é hoje a nossa matriz, onde colocou a imagem de Nossa Senhora da Conceição. No dia 03 de fevereiro de 1766, dá-se a criação da freguesia (paróquia), tendo como primeiro vigário o padre João da Cunha Paiva, por providência do bispado de Olinda e Recife, D. Francisco Xavier Aranha. Para o surgimento oficialmente da paróquia de Apodi a história registra como legado pio e desprendimentos de esforços determinantes para tanto, dos senhores Antônio da Mota Ribeiro (para uns), e de Miguel Rodrigues da Silva (para outros). São tantos catequistas ordenados pela a Igreja que passaram pelas
terras de Poty/Pody/Apody e demais paroquianos de fé que só temos que reconhecê-los e prestar a justa homenagem pela brilhante e significativa obra de “Ide e fazei discípulos” (Mt. 28,19) e da comunidade se firmando, se norteando, nos ensinamentos de Deus, embora o que aqui se reverencia seja de forma singela, porém importante, para não os deixar no esquecimento! Cristãos que marcaram épocas distintas, os que já deram as suas contribuições, os que estão e os que vão dar as suas parcelas de colaboração, de modo contínuo, perpetuando a tão nobre missão do cristianismo, de viver em comunidade, de ser paroquiano. Salve paróquia, avante para o tricentenário!
Conterrâneo apodiense aqui se faz necessário, como num ato litúrgico réquiem, voltar ao passado sem olvidar os que já não se encontram entre nós, embora que postumamente nos levam a valorizá-los, merecidamente, pelas suas contribuições, pois se entende o presente, norteado pelos antepassados. Do Bicentenário são poucos que restam agora no nosso convívio telúrico, os quais é um presente glorioso ouvi-los e saber dos feitos de outrora, rememorar a maior festa que já aconteceu em solo apodiense. Foram doze dias (de 07 a 18 de dezembro de 1966), de solenidade religiosa, esportivo e cívico-cultural. Saudemos “in memorian” padre Pedro Neefs, Robson Lopes, Valter Guerra, Alcivan Pinto, Altino Dias, Holanda Cavalcante, João de Deus Gomes, Zé Cabral, Alice Pinto, Maria de Abila, João Custódio, Nenen Tonico, João de Felipe, Bugue... Seria uma lista extensa se fossem postos todos aqui, de reconhecidos e já falecidos, que ajudaram a paróquia na comemoração do bicentenário e que não cabe nominar todos aqui.
Os que se dedicaram ao bicentenário e ainda se encontram no meio de nós, muitos deles com seus bons anos vividos, relembremos: Leonildes Marcolino, Caboclo de Manú, Lalá de Adolfina, João de Toinho, Titico de Mané Pedro, Celly de Tila, Neuma de João Lucas e demais envolvidos cristãos que se congregaram, naquele ano de 1966, que viveram, presenciaram e assistiram a passagem do inesquecível evento histórico do Bicentenário da nossa paróquia.
Nossa homenagem pelos devidos reconhecimentos dos seus trabalhos voluntários – homens e mulheres, – “nordestinos de fibra e arrojo”!
Regozijemo-nos por vivermos e sermos destas terras, “deste vale tão rico daqui”, - santo precursor, mãe divina, salve a nossa paróquia!
Paroquianos, filhos da cidade (que se encontram nos recantos mais longínquos) e aos cristãos de boa vontade que amam essa terra e que dela
fazem o seu novo berço, vivendo em nossa comunidade, conclamo a participarem dos atos comemorativos dos 250 anos de existência da Paróquia de Apodi, transcorrido em 03 de fevereiro do ano em curso, estendendo-se por todo o ano, encerrando-se na festa da padroeira no mês de dezembro.
[1766, padre João da Cunha, primeiro pároco. 2016, padre Maciel, atual vigário da paróquia, entusiasta e reanimador do seu rebanho, ambos missionários que nos honram, tal qual o saudoso padre Pedro Neefs. Todos que congregam e organizam a paróquia de Apodi estão de parabéns por mais uma passagem natalícia e histórica!]

VAGAS MEMÓRIAS DOS FESTEJOS DO BICENTENÁRIO, RESENHAS QUE FICARAM:

1. Além dos festejos religiosos, tivemos o campeonato esportivo, envolvendo os times de futebol que, por sua vez, tinham presidente e rainha representativa daquelas agremiações.
a) Da ACDA, José Virgínio Câmara (?) e Vânia Guerra;
b) GRÊMIO, o mecânico Cabeleira e Arlete Gurgel;
c) CENTRO, Robson Lopes e Gizelda de Quelé, respectivamente.
Foi dito também que o time da Soledade participou deste torneio futebolístico. [Não consegui colher dados.]

2. Aconteceu um desfile com passarela montada no campo de futebol, Estádio Antônio Lopes Filho, de moças bonitas de Apodi para então ser escolhida aquela que seria a rainha do Bicentenário da Paróquia. Disputando, estavam Do Carmo, de Derim Leite, Lourdes, de João de Quincas e Neuma, de João Lucas. Dentre estas, ganhou o certame glamoroso Neuma Fernandes, ficando, em segundo lugar, Lourdes Noronha. Coroou-se e pôs-se a faixa naquela, na rainha, que doravante esteve sempre presente nos atos e festejos alusivo à grandiosa festa. Após o encerramento dos festejos, segundo aquela que foi rainha ao recordar demonstrando ar de saudades, disse: “A coroa e a faixa o padre pediu de volta...”

3. João de Toinho foi um dos que estiveram próximos de padre Pedro, colaborando. Segundo ele, no encerramento da festa do Bicentenário houve uma partida de futebol entre a seleção de Apodi e a de Mossoró, cujo jogo foi retransmitido pela Rádio Rural de Mossoró. O velho Lalá ajuda nos informes e completa: a pessoa que trouxe o
time Ypiranga, escolinha do Potiguar, foi Zoivo Barbosa (o pai de Itaércio). Ainda com João de Toinho recordando, veio a Banda de Música da Polícia Militar, de Natal, que tinha como um de seus membros o sargento Evangelista. Depois ele ficou no Apodi, sendo mestre e professor de música da banda FUNDEVAP. Titico de Mané Pedro informou que, quando essa banda esteve no Apodi para o evento dos duzentos anos da paróquia, cada músico integrante foi distribuído em casas de família do Apodi (haja vista a escassez de hospedaria comercial). Para João de Toinho a festa durou uns dez dias (oficialmente foram doze). Todo dia vinha um padre convidado das paróquias, das cidades vizinhas, para celebrar novenas, confissões e outros atos litúrgicos. Veio muita gente de fora e ressaltou ainda mais: “Foi a festa mais bonita do Apodi!”. O memorialista comentou também sobre as rainhas dos times e a do Bicentenário e também do motor (gerador de energia) que fornecia iluminação pública à cidade, da Usina de Força e Luz Municipal, que se encontrava no “prego” sem funcionar. Doutor Alcivan Pinto levou o motor para o conserto na cidade do Natal, (naquele tempo o governador do Estado era o monsenhor Walfredo Gurgel). Do retorno do motor à Apodi foi como um acontecimento apoteótico. Quando o caminhão, conduzindo o possante motor gerador, chegou ao dito local, Cancela do Posto Fiscal de Canto de Varas, da chapada, o advogado Alcivan Pinto subiu na carroceria e escanchou-se, montou-se como quem se monta em animal, e o caminhão entrou na cidade a desfilar com aquele cavaleiro vitorioso, indo até a Usina, entregar a Raimundo da Luz, que providenciou a sua instalação. Tal ato feito foi como um bravo de vitória, pois os festejos do Bicentenário se realizariam com a cidade iluminada.

4. O jovem estudante da época, Fernando de Chico Guarda, frisou importância que teve a Associação Recreativa dos Jovens Apodienses – AJA, que funcionava no prédio da FUNDEVAP, vizinho à casa paroquial. Era lá que os jovens iam se divertir com festa (tertúlias), no seu salão de dança, jogos de mesas como dama, firo, xadrez, caça varetas (palitos coloridos), banco imobiliário, ping pong etc. Além da apresentação da banda de música, diariamente, no patamar da igreja matriz sempre depois das novenas tinham a festa de rua, na frente do templo, no quadro da praça central – quermesses, com o famoso parque de diversão, bingo, com barracas de guloseimas, bebidas alcoólicas, e bancas com jogos de azar (trinta e seis, vinte e cinco, roleta etc.), para uns jogos da sorte, pois quem
ganhava apelando pela sorte ficava com um dinheirinho a mais para completar a farra da noite. No Bazar da Alegria, comidas típicas, vinte e um, bozó com as tabuinhas numeradas de acordo com os do bozó. Sem falar dos grandes leilões da festa da padroeira, já que os festejos do Bicentenário aconteciam, coincidentemente, no mês de dezembro com o da festa da padroeira, Nossa Sra. da Conceição.

5. Para comemorar o Bicentenário antecipadamente foi feita uma vasta programação e constava a edificação de um monumento defronte à matriz, no local onde existia o velho cruzeiro. Lalá, de boa memória, contou essa história, acompanhada de uma boa risada ao se lembrar que o dentista Bugue foi uma peça importante na construção do monumento, pois foi quem trabalhou voluntariamente na estrutura de cimento armado do citado esqueleto de ferro daquela estrutura comemorativa dos duzentos anos. No entanto, diante do esforço do dentista, o povo dizia, como troco recebido, que “Bugue estava era interessado nos cobogós do velho cruzeiro!”. Pois não é que o arteiro da armação de ferro do monumento, depois de tudo, construiu sua própria casa no centro da cidade e parte dos cobogós estava lá visivelmente aos olhos dos linguarudos. A outra parte, na casa do senhor Geraldo Pinto.

6. Ainda como um legado simbólico para posteridade do bicentenário, foi feito o hino do bicentenário. Para tanto, recorreu-se ao excelente compositor, o padre Alberto Manoel Azêvedo, autor da letra, e ao seminarista Silvio Milanez de Medeiros, que externou a bela melodia do hino, fazendo com que quem a ouvisse nunca esquecesse. Enfim, nunca recebeu a quantia monetária pelo trabalho realizado, ficando a sociedade apodiense com essa dívida eterna. Em 1966, eu tinha apenas cinco anos de idade. Ainda tenho de memória o hino do bicentenário! O compacto, disco de vinil, com o hino do Bicentenário se encontrava na residência do senhor Tião Lúcio, onde cheguei a ouvir várias vezes na radiola, sob os cuidados da sua filha Dodora.

7. O diretor da Rádio Rural de Mossoró era o padre Américo Simonetti. Essa emissora sempre esteve presente nos festejos da paróquia de Apodi, cobrindo apresentações no patamar da igreja e concursos da mais bela voz.

8. A população de Apodi em 1966 era de 19.166 habitantes. Desse total, apenas 4.000 na área urbana. Eu já era importante naquela época por servir de dado estatístico para contagem do contingente, um apodiense com apenas cinco anos de idade.

9. Padre Pedro Neefs ficará na história de Apodi não só como um sacerdote abnegado, mas como um cidadão que soube reconhecer, valorizar e alavancar as riquezas desse solo tão rico daqui. Ele sempre dizia que “os apodienses vivem sobre uma riqueza adormecida”. Alguma rua, praça ou qualquer logradouro é merecedor de tê-lo com seu nome, por justa homenagem.

10. O bispo da diocese de Mossoró era dom Gentil Diniz Barreto. Foi ele que publicou uma mensagem ao povo de Apodi, na primeira página do jornal A Ordem, edição comemorativa do Bicentenário, com data de 10 de dezembro de 1966, dando as benções e felicitações, com o ponto alto do seu discurso aos comparoquianos. Antevendo o futuro, assim disse: “Fazemos votos para que no decorrer do tri-centenário possa a paróquia do Apodi preparar um acervo de serviços pastorais, onde os leigos possam ter a alegria de terem inculcados a presença da Igreja em todos os setores da vida dos que fazem a comunidade de Apodi.”
Decerto, o vigário de então da paróquia, o honorável padre Pedro Neefs, era o referencial do seu discurso, pois o sacerdote tinha incorporado esses princípios, pois o seu trabalho em Apodi já era de reconhecido mérito.

11. Naquele período do Bicentenário, o tesoureiro da agremiação de futebol Centro Esportivo Apodiense era o comerciante Nenen Tônico. Lalá relata que o tesoureiro dava feiras mensais aos jogadores Fifio e a Cacimbão, duas feiras extras no seu orçamento, do seu bolço. Nenen no auge da dor da traição queixou-se ao dizer:
- Fiz dois negros de homens e eles fizeram de mim um cachorro!
Os dois craques iscariotes tinham passado para ACDA em troca de terem o direito de adentrarem ao recinto do clube ACDA, de fato, coisa para época de encher o ego de qualquer um com menos condições financeiras. Com isso, fez com que o pacato e sereno comerciante se exaltasse ao extremo por deixarem o seu time desfalcado. Ego preenchido, barriga vazia. (Lalá no bar do Luá, Apodi, 08 e 09 de janeiro de 2016).

12.Antecedendo a grande festa do Bicentenário da Paróquia de Apodi, na chegada do padre Pedro Neefs, isso mais ou menos em meados de 1964, foi feita uma solenidade de recepção em que foram convidadas várias autoridades, ou melhor, pessoas notáveis da cidade para se fazerem presentes e assim receber e dar boas-vindas ao recém-chegado padre de naturalidade holandesa e, concomitantemente, à
apresentação dos apodienses, o locutor Valter Guerra, ao microfone ia anunciando os nomes dos presentes, tecendo comentários sobre a atividade profissional daquela pessoa. O primeiro foi o próprio locutor, que se autoapresentou como fiscal recenseador do órgão público federal IBGE e, nas horas vagas, tocador do instrumento de sopro clarinete. Tudo bem, tudo verdade. Em seguida, identificou o renomado professor Robson Lopes, mestre educador do ginásio Antônio Dantas. Frisou ainda que o novo padre tinha alguém no Apodi para uma conversação no idioma inglês. Passou para o próximo, o Caboclo de Manú, este como mestre artífice das construções e homem dedicado às obras da paróquia. Depois, o locutor prosseguiu, apresentando o comerciante e fazendeiro Nenen Tônico e, sucessivamente, os farmacêuticos Nenen Holanda e João de Custódio, os alfaiates Titico de Mané Pedro e Albercir Pio de Sousa. Referenciou Lalá, que se fazia presente, como o grande leiloeiro das festas da igreja e ajudante braçal da paróquia, João de Toinho, membro da família tradicionalmente religiosa – os lúcios – trabalhador auxiliar de mestre de obra, Alice Pinto baluarte da paróquia, por ser organizadora dos festejos religiosos, Maria de Abila, tabeliã do cartório, fervorosa religiosa, e as professoras Ivone Maia e Maia Do Carmo Maia, diretora da LBA. Enfim, diante de tantos comentários realistas, chegou a vez de Altino Dias. O locutor, já um tanto exausto, por falar e procurar adjetivos para seus comparoquianos, apresentou-o simplesmente como sapateiro. Só que, inesperadamente, quebrando o ritual protocolar, Altino se pôs de pé e remendou o anunciado do locutor:
- Sapateiro não, pistonista!
Lá pras tantas do ato receptivo, o padre já se sentindo em casa, mas com a erudição europeia, diletante da boa música e das sinfonias, predispôs-se a ouvir aqueles instrumentistas, que tanto fascinavam seus ouvidos. Chegou a pedir que o ajudante paroquial Lalá fosse pegar o clarinete para Valter executar algumas melodias, exibindo seus dons musicais. Como bem sabia, assim o fez merecedor de aplausos. O padre parece que não ficou satisfeito só com uma apresentação. Sugeriu convidá-lo, interessado em ouvir também aquele que se apresentou como pistonista. Mas Lalá, conhecedor dos dotes musicais de Altino, foi duro no esclarecimento dos fatos com a sua linguagem rasteira:
- Padre Pedro, Altino só sabe tocar aquilo com a mão!
O exímio tocador mesmo de piston era o irmão Aurino e Lalá, primo deles, se sentiu à vontade para falar o que deu na cabeça. Embora arrependido pelo dito, o velho Lalá, se abriu num largo sorriso ao relatar o fato, depois de tanto tempo.
Contado por Lalá em dezembro de 2016.

13.A festa do Bicentenário da paróquia de Apodi foi muito bem organizada, o sucesso deveu-se a equipe e suas ideias, uma delas era onde tinha um filho de Apodi, residindo em outra cidade ou estado, padre Pedro, quando conseguia o endereço remetia-lhe carta/convite.
Fotografia do acervo de João Paulino Neto (1966). Veem-se Dr. Alcivan Pinto e Dr. Lacy Gadelha em solenidade do Bicentenário no Estádio de Futebol Antônio Lopes Filho. Ao fundo, algumas das rainhas, provavelmente do Bicentenário e/ou dos times de futebol.

PADRE PEDRO NEEFS FOI PARA APODI MAIS DO QUE UM SACERDOTE, MAIS DO QUE UM PREFEITO, POIS O LEGADO É IMENSO E DE VALOR, TANTO DE CUNHO RELIGIOSO QUANTO NO SÓCIO-CULTURAL!

P.S.: Para elaborar o presente texto, o autor conversou com João de Toinho, Titico de Mané Pedro, Lalá de Adolfina, Fernando de Chico Guarda e William Guerra. Também fez leitura do jornal A Ordem, do Bicentenário, de 10 de dezembro de 1966.

Natal, 17 de janeiro de 2016
Nuremberg F. de Sousa (Nurim de Bugue).

domingo, 13 de março de 2016

Contra quem?

O golpe é contra você


O golpe não é contra Dilma. Não é contra Lula. Não é contra o PT. O golpe é contra os 54,3 milhões de votos que elegeram a presidenta em eleições livres e limpas. O mandato presidencial a eles pertence. Caso a agressão à soberania popular promovida pelo golpe se concretize, eles é que serão cassados.
Por Marcelo Zero*, no Brasil Debate
O golpe é contra os 54,3 milhões de votos que elegeram a presidenta em eleições livres e limpas. O mandato presidencial a eles pertence. Caso a agressão à soberania popular promovida pelo golpe se concretize, eles é que serão cassados.
O golpe é contra os 42 milhões de brasileiros que ascenderam à classe média, nos últimos 13 anos. É contra os 22 milhões de cidadãos que deixaram a pobreza extrema para trás. É contra as políticas sociais que praticamente eliminaram a miséria no Brasil. Miséria histórica, atávica, contra a qual os representantes do golpismo pouco ou nada fizeram, quando governavam.
O golpe é contra um processo de desenvolvimento que conseguiu tirar o Brasil do Mapa da Fome. Fome secular, vergonhosa, que os golpistas nunca conseguiram saciar. O golpe é para colocar o Brasil no Mapa da Vergonha.
O golpe é contra a igualdade e pela desigualdade. Os que apostam no golpe também apostam na desigualdade como elemento essencial para o suposto bom funcionamento da economia e da sociedade. Eles apostam na meritocracia dos privilégios.
O golpe é contra a valorização do salário mínimo, que aumentou 76,5%, nos últimos 11 anos. O golpe é pelos salários baixos para os trabalhadores, pois, para os golpistas, salários reduzidos são essenciais para o combate à inflação e a competitividade da economia.
O golpe é contra a geração de 21 milhões de empregos formais, ocorrida nos últimos 12 anos. Quem aposta no golpe aposta num nível de desemprego mais alto, para reduzir os custos do trabalho. Aposta também na redução dos direitos trabalhistas, na terceirização e na volta da precarização do mercado de trabalho.
O golpe é contra a Petrobras e pela Petrobax. O golpe é contra a política de conteúdo nacional, que reergueu nossa indústria naval e reestruturou a cadeia econômica do petróleo. O golpe é contra a nossa maior empresa e tudo o que ela simboliza. O golpe é pela privatização e pela desnacionalização.
O golpe é contra os programas que abriram as portas das universidades brasileiras para pobres e afrodescendentes. O golpe é contra o ENEM e pelo vestibular. O golpe é pela manutenção da educação de qualidade como apanágio para poucos. O golpe é pela privatização do conhecimento. O golpe é contra as novas oportunidades e pelos antigos privilégios.
O golpe é contra o SUS e o Mais Médicos, programa que leva assistência básica à saúde a mais de 60 milhões de brasileiros que antes estavam desassistidos. O golpe é contra a saúde pública e pela mercantilização da medicina. O golpe é contra médicos cubanos e pacientes brasileiros. O golpe é pela doença que rende lucros. O golpe é uma patologia.
O golpe é contra a política externa ativa e altiva. O golpe é contra a soberania e por uma nova dependência. O golpe é contra o Mercosul e a integração regional. O golpe é para desintegrar a projeção dos interesses brasileiros. O golpe é para nos alinhar aos interesses das potências tradicionais. O golpe é contra o grande protagonismo que o país assumiu recentemente. O golpe é para nos apequenar.
O golpe é contra uma presidente honesta e pelos corruptos. O golpe é contra o governo que mais combate a corrupção. Que multiplicou as operações da Polícia Federal de 7 por ano para quase 300 por ano. Que fortaleceu e deu autonomia real a todas as instituições de controle. Que engavetou o engavetador–geral. O golpe é contra as apurações e pela impunidade. O golpe é contra a transparência e a verdade. O golpe é um engodo ético e moral. O golpe é cínico e hipócrita. O golpe é uma grande mentira.
O golpe é contra o futuro e pela restauração do passado. A única proposta do golpe é o golpe.
O golpe é contra a esperança e pelo ódio, para o ódio. O golpe é intolerante. O golpe é mesquinho.
O golpe é contra a grande nação e pela republiqueta de bananas.
O golpe é contra a democracia. Contra o Brasil.
O golpe é, sobretudo, contra você.
*É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI).

Em defesa da democracia

Um convite ao bom senso
Flávio Dino, governador do Maranhão

Mudanças impostas à força no Brasil sempre resultaram em grandes desastres. O exemplo mais recente foi o golpe civil-militar de 1964, que prendeu, exilou, perseguiu e torturou brasileiros, sem amparo em regras legais. Ao contrário disso, o Brasil avança quando maiorias são construídas nos marcos do Estado de Direito, mediante diálogos e consensos progressivos, sem rasgar regras constitucionais.
Rasgar princípios e regras, a pretexto de uma luta política momentânea, abre as portas para jogar-nos novamente no imprevisível. A pretendida solução de um impeachment sem base constitucional não seria um ponto final, mas o marco zero de um longo ciclo de vinganças, retaliações e violência política, que arrastaria a economia para uma depressão ainda maior.
Seria um caso único no presidencialismo no Planeta: um Chefe do Poder Executivo ser afastado sem ter pessoalmente cometido qualquer crime no curso do mandato; e afastado sob a liderança de políticos que, eles sim, respondem a processos criminais. Nem Kafka, nem Marx, nem Hegel escreveriam um roteiro tão "criativo".
Chegamos na beira do precipício com uma gravíssima crise política. Recentes ações atabalhoadas de alguns promotores são sintomas institucionais de preocupante descontrole geral, em que tudo pode acontecer. Não teremos um "vencedor" nesta guerra. É preciso que todos os lados envolvidos sentem-se para dialogar tendo à mesa o futuro do país.
Do lado da oposição, é preciso entender que, por maior que seja a ânsia de retornar ao poder, o momento marcado na Constituição para esse debate será outubro de 2018. Do lado do governo, é preciso apresentar uma agenda clara de retomada do crescimento econômico, que supere a crise que vivemos com conseqüências alarmantes para o emprego e qualidade de vida de milhões de brasileiros. Essas soluções não passam por um “ajuste fiscal” que consome metade dos recursos da União com pagamento de juros. É preciso reduzir os juros e retomar programas de crédito direcionado, como o “Minha Casa Minha Vida”.
Fora do mundo político, é preciso que as elites econômicas também assumam a responsabilidade sobre o clima de beligerância criado. Atualmente, a crise só tem servido a bancos, que em meio a uma queda de 3,8% do PIB viram seus lucros crescer 15% chegando à somatória de quase R$ 50 bilhões em lucro – apenas considerando as três maiores empresas privadas do setor. São os seus interesses de manutenção dos juros altos que levam à crise recessiva. Com a recessão instalada, os bancos defendem que é preciso aumentar juros para atender ao "mercado", mantendo o círculo vicioso. Ou seja, querem um Brasil em que somente 1% da população ganha, passando por cima dos interesses e direitos dos demais 99%.
As grandes empresas de mídia do país também devem ter consciência do papel decisivo que desempenham neste momento. A onda de pregações delirantes e boatos sobre intervenção das Forças Armadas mostram a gravidade do quadro. Não vale a pena destruir a democracia por interesses momentâneos. Sempre se deve lembrar que o princípio da ação e reação atua também na história.
Na guerra de todos contra todos, sobressai o mais forte. E com certeza, no mundo em que vivemos, esse não é o interesse do cidadão comum. É preciso retomar o diálogo sério para encontrar soluções aos males que realmente afligem o país, como o subfinanciamento da saúde pública, os casos de Zika, a crise econômica, o desemprego, a mobilidade urbana. Toda forma de corrupção deve ser combatida, mas segundo o devido processo legal, conduzido com serenidade, prudência, sem a paixão pelo espetáculo.
Será vergonhoso para o País chegar a agosto de 2016, na abertura de um evento que celebra a união dos povos, os Jogos Olímpicos, no clima de conflagração interna que vivemos. Só o diálogo pode salvar a Nação de momentos ainda piores.

[MÍDIA CORRUPTA] A maior de todas as corrupções

Por Venício A. de Lima, na Carta Maior
“Se as palavras servem para confundir as coisas é porque a batalha a respeito das palavras é indissociável da batalha a respeito das coisas”. Jacques Rancière, O Ódio à Democracia, Boitempo, 2015.
A geração do pós Segunda Grande Guerra se lembrará de que, na metade do século passado, crescemos sendo educados sobre a grande ameaça que pairava sobre o mundo ocidental cristão: o comunismo ateu.
Em tempos de Guerra Fria, sob a tutela dos interesses da política externa dos Estados Unidos, o
comunismo vermelho transformou-se na encarnação do mal na Terra, o inimigo comum a ser combatido. Era isso o que aprendíamos em casa, na escola, no catecismo da igreja, no rádio, nas revistas infantis, nos jornais e nos filmes “de guerra”.
Na minha mineira e barroca Sabará, circundada por dezenas de igrejas Católicas do ciclo do ouro colonial, mais tarde cidade operária de movimento sindical forte, a mera suspeita de que alguém pudesse ser simpatizante comunista bastava para que se criasse um estigma social como se esse alguém fosse portador de doença contagiosa, a ser evitada a qualquer custo.
Com a vitória da Revolução Cubana, o inimigo comum ficou mais próximo e ainda mais perigoso: o comunismo e, claro, seus seguidores, os comunistas subversivos.
A oposição política ao Getulismo herdado pelo presidente João Goulart, democraticamente eleito, materializou o anticomunismo na luta sem tréguas contra a ameaça que seu governo representava de “vir a ser” controlado por comunistas.
A narrativa pública sobre essa ameaça e a necessidade inadiável de defesa da democracia “antes que fosse tarde demais” foi sendo consolidada. Um vocabulário específico foi costurando a nova linguagem que aprisionou o pensamento de vastas camadas da população com o protagonismo ativo da “Rede para a Democracia” que reunia diariamente em todo o país emissoras de rádio e jornais dos principais grupos de mídia da época: Os Diários Associados, O Globo e o Jornal do Brasil.
Não se constituiu exatamente em surpresa, portanto, quando na reta final para o golpe civil-militar de 1964, setores, sobretudo, da classe média urbana, saíram às ruas para defender os valores e tradições cristãs, o mundo livre e a democracia, para combater o inimigo comum, o comunismo e os subversivos comunistas.
A corrupção, sim, a corrupção aparecia apenas como uma coadjuvante do inimigo principal na narrativa publica dominante.
Deu no que deu. Em nome do anticomunismo, da democracia e em defesa dos valores cristãos, o país padeceu 21 longos anos de ditadura.
Mais de meio século depois, um novo inimigo comum - A Guerra Fria acabou (?). O comunismo
deixou de ser o inimigo comum do Mundo Livre, do Ocidente Cristão. Lyndon B. Johnson não é mais presidente dos EUA e nem Lincoln Gordon seu embaixador no Brasil. Os militares brasileiros se dedicam às suas missões constitucionais. As Torres Gêmeas foram atacadas em Nova Iorque. O mundo se globalizou.
Muita coisa mudou, mas a exigência de um inimigo comum para garantir a identidade e a coesão ideológica de uma posição política (ou de um grupo) continua mais atual e necessária do que nunca.
O terrorismo e o islamismo – ou o terrorismo islâmico – passaram a ocupar o lugar de inimigo comum que antes pertencia ao comunismo no cenário internacional, a partir do início do novo século.
Entre nós, mais recentemente, o comunismo foi substituído por um velho e conhecido inimigo, coadjuvante nos idos de 1964: a corrupção da coisa pública e, claro, os corruptos.
Hoje, mais do que ontem, os oligopólios privados que controlam o que chega ou não ao conhecimento público – vale dizer, que controlam o espaço onde se forma a opinião dita pública – detêm o poder de definir a linguagem dentro da qual se enclausura a construção do inimigo comum.
Hoje, mais do que ontem, a definição do significado de cada uma dessas palavras – o que constitui corrupção e quem são os corruptos – faz parte essencial da própria disputa pelo poder.
A novidade entre nós, nos últimos anos, talvez seja a participação militante de setores do Judiciário que, seletivamente, escolhem qual corrupção devem investigar, e quais os corruptos devem ser julgados e condenados. Tudo com a colaboração ativa e decisiva da grande mídia e de seu vocabulário e linguagem uniformes.
O resultado de todo esse processo – que já presenciamos – é um país dividido ao meio, intolerante e
cheio de ódio.
A corrupção é hoje o que o comunismo foi nos tempos de Guerra Fria. E os corruptos foram sendo seletivamente definidos como sendo apenas os petistas, filiados, aliados ou apenas simpatizantes do Partido dos Trabalhadores. Combater o petismo e tirar os seus líderes do poder – mesmo que tenham sido democrática e legitimamente eleitos – ou impedi-los de tentar, democraticamente, voltar ao poder – foi aos poucos se constituindo na prioridade de vastas parcelas da população.
A memória coletiva, infelizmente, é curta. Muito curta. A maioria dos brasileiros talvez não saiba ou não se aperceba que os anos passam, mas as estratégias e os mecanismos de luta pelo poder se repetem e, muitas vezes, perpetuam os mesmos grupos e os mesmos interesses: a maior e mais antidemocrática de todas as corrupções é a corrupção da opinião pública.
Talvez um dia a História (com H maiúsculo) revele a todos os brasileiros o que de fato está a acontecer no Brasil de 2016.

Memorial da Democracia - Um museu das lutas democráticas do povo brasileiro

domingo, 3 de janeiro de 2016

FORMIDÁVEL APOLINÁRIO


“O Gênio de Apodi”

Não é de hoje, todavia já se ouviu falar de seres humanos com mentes formidáveis, pelo mundo a fora. Foram, ou são, homens cultos, cientistas, inventores e até cidadãos comuns com raciocínios rápidos e acumuladores de informações descomunais. Mentes fenomenais que se perpetuam na história pela importância que tiveram dentro do seu meio intelectual e, ou, científico.

O Apodi foi contemplado com desses raros possuidores de mentes extraordinária, o único, o inigualável, é o que se pode comprovar, até o dia de hoje, não apareceu outro! Veio para a fama o apodiense que logo tão cedo externou dotes intelectuais fora do comum, isso num tempo em que pouquíssimos estudantes que despontavam nos estudos, na capital, quebrando barreiras ao passarem no dificílimo vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, da área médica, como: Francisco Câmara (Chiquinho de Joel), José Nilson Câmara (Zé Nilson de Josué) e Getúlio Maia no curso de medicina; Nilson Guerra (filho do escritor Valter Guerra) e Eronildes Tôrres, na odontologia, já este cursou em Manaus; Moésio Holanda, medicina, Fortaleza e algum outro na universidade de agronomia, de Mossoró e no curso de Direito, Natal e Ceará. Contavam-se nos dedos os filhos de Apodi que estudavam fora para serem doutores, com canudos e anéis de formatura. Orgulho para a família e para cidade, também.

Apolinário ou Paulinho como era mais conhecido, nos anos setenta, do século XX, quando o Apodi era uma pequena cidade tranquila e sem vislumbrar prosperidade, ele fez com que despertasse a admiração ao elevar, conjuntamente com o seu sucesso, o nome da cidade esquecida. Apodi deixou apenas de ser um ponto no mapa do Rio Grande do Norte, pois se comentava por todos os cantos e se lia nos principais jornais impressos: o gênio de Apodi, o superdotado de Apodi, mente prodígio, o agricultor-gênio apodiense que não frequentou banco escolar... 

É de se perguntar já que ele era inteligente e porque não prosperou na vida, não chegou cursar uma faculdade, não se formou em grau de doutor? A resposta é simples, porque ele mesmo viveu no seu mundo cercado de rudeza. Apolinário teve suas origens na zona rural de Apodi, no seio de uma simplória família carente, analfabetos, de agricultores e conviveu no povoado sítio Boa Vista entre pares sem instruções e na extrema ignorância. Talvez se encontre justificativa pela característica intrínseca de ter sido temperamental e, de certo modo, considerado de incivilidade por alguns, já por ter sido contundente em suas respostas insípidas quase sempre subestimando os seus interlocutores por não encontrar sintonia com o seu raciocínio.  Não frequentou bancos escolares, mas segundo o seu irmão Antônio de Carvalho (de apelido O Padre), nos primeiros nove dias de sua vida escolar repudiou a escolinha de ensino primário já por achar que a professora não sabia o suficiente, o que se lecionava, ele, já sabia de tudo. Não encontrava ressonância para troca de saberes à altura do seu intelecto. Apolinário abandonou desde então o ensino oficial e continuou adquirindo seus conhecimentos, como autodidata, devorando revistas, enciclopédias, livros e mais livros com leituras dinâmicas, incansáveis. Tinha uma facilidade incomensurável de assimilar, captar e explicar o que lia de forma extraordinária. Se distinguindo, logo cedo, dos demais, contemporâneos seus. Apolinário era ávido por leituras, não podia ver compêndios ao seu alcance que folheava e o lia ligeiramente, comprimindo os olhos, semicerrados, como se estivesse procurando as letras e absorvendo em sua mente o que se via nas linhas e nas entrelinhas. Apolinário nunca aprendeu a escrever, redigir, corretamente o seu idioma pátrio. Uma de suas caraterísticas era ler em voz alta gesticulando os lábios. Conta-nos o médico Francisco Câmara, na época acadêmico de medicina, que certa noite, em Natal, na Residência Universitária de Medicina, casa 8, da UFRN, quando o Apolinário esteve acomodado como hóspede por lá, ao ver um volumoso livro de traumatologia, de um colega, pegou-o e deteve-se a lê-lo varando a noite, ao bater a capa do livro por ter lido por completo já sob a luz clara da matina.  O sábio de Apodi era tão viciado em leitura que vez por outra aparecia no Posto Fiscal de Canto de Varas, da Secretaria da Fazendo do Estado, tão somente, com o objetivo de passar a noite a ler os últimos livros adquiridos pelo fiscal renda de plantão, o senhor Carlos Freire; lembrou o senhor Toinho Monteiro em conversação sobre Apolinário. Ainda sobre teste, submetido por autoridades da cidade, Apolinário também passou pelo crivo do padre Pedro Neefs e do promotor de justiça Jarbas Martins quando lhe foi dado livro para se fazer a leitura com o intuito de posterior interrogatório sobre o mesmo, fato que aconteceu se folheando aleatoriamente páginas e, para cada pergunta se tinha resposta, Apolinário comentava o assunto referendado deixando o pároco e promotor pasmados – ele sabia de tudo!  Memorizou o mano Haroldo Ferreira de Sousa. 
 
Como sempre, o “santo de casa não faz milagre”, ou melhor, não recebia as merecidas considerações, na cidade com a maioria da população composta por pessoas iletradas viam Apolinário como uma pessoa de comportamento estranha e até como louco; já na minoria, como superdotado; poucos eram os que o valoriza. O acadêmico de medicina de então, Chiquinho de Joel, nos períodos de férias era frequentador, de toda tarde do dia, da farmácia do senhor Holanda Cavalcante, homem este conhecido na cidade por ter vastos conhecimentos, tanto sobre doenças, de remédios a medicar, como da história em geral, um paramédico que gente estudada da cidade frequentava a sua botica para salutares confabulações que envolvia um pouco de tudo. Assim, o acadêmico de medicina, o escritor Valter de Brito Guerra e outras figuras letradas se faziam presentes e lá, era ponto de encontro do admirável Apolinário. Foi a partir daí, que se deu a descoberta das potencialidades de Apolinário e o convencimento de persuadi-lo para ir a capital do Estado, onde atingiu o auge por dar entrevistas e participar de debates respondendo perguntas de conhecimentos gerais, na ponta da língua, inclusive, até sendo recebido na residência oficial do governo do estado potiguar, pela primeira dama, dona Aída Cortez. Tamanho era o prestígio de Apolinário que o até hoje, o insuperável governador do Rio Grande do Norte, Cortez Pereira, persona culta, que estava para além do seu tempo, também o admirava, inclusive, doou-lhe “muitos livros que os quais ele conhecia o conteúdo de todos ”, ressaltou a irmã Irene Maria de Carvalho. 
 
No mesmo período do sucesso na capital, em Mossoró, Apolinário também deu show de conhecimentos quando se submeteu a participar de programa da emissora Rádio Rural de Mossoró, à uma roda composta por homens intelectuais que lhe testava os seus conhecimentos e, o gênio apodiense, aduzia com argumentos consistentes à bateria de questões. Do mesmo modo em Natal, na Televisão Universitária, Programa Xeque-Mate, diante de sábios e estudantes bem preparados do curso de jornalismo a inquiri-lo, respondeu à todas perguntas de modo convincente e satisfatórias “não deixou de responder uma pergunta”, pelo reconhecimento, como quem recebe troféu ao subir ao pódio, não é que todos que se faziam presentes, o “aplaudiram de pé”, frisou doutor Francisco Câmara. Apolinário fez o maior sucesso em Mossoró e em Natal, mesmo sem ser cantor, ator e jogador de futebol, reconheceram e ovacionaram àquela mente brilhante.

Hoje, quem sabe, por falta de mentes portentosas a imprensa chega a batizar, indevidamente, até jogador de futebol por – Fenômeno. Tal epíteto, de acordo com a sinonímia, cai perfeitamente para o nosso saudoso – Apolinário, já pôr esse termo significar: “fato de interesse científico e que pode tornar-se objeto de experiência ou de estudo. Pessoa ou coisa que se faz notar por seu caráter anormal ou surpreendente”. O Paulinho da Boa Vista, alcançou esses requisitos, pode-se compará-lo com algo mais, pois foi o nosso primeiro computador humano em um tempo em que não se ouvia falar de tal máquina, pois Apolinário era detentor de uma memória invejável, como se diz no linguajar tecnológico de hoje, parecia possuir chip com capacidade de vários gigabytes. Foi um verdadeiro armazenador de sabedoria.

Outro dia, numa reunião matinal de amigos assíduos, na calçada da residência de Adonias filho, Apodi centro, presenciei Apolinário a fazer cálculos mirabolantes, de cabeça, com numerais com casa dos milhares, baseado numa matéria científica de certa revista sobre a calvície, de acordo com média mencionada e outros dados numéricos chegou a calcular o número de cabelo de um ser humano normal, em questão de segundos. Elaborava cálculos mentalmente com resultados precisos e rápidos que só se faria, pessoas normais, usando da calculadora.

Surpreso com a elevada inteligência, o repórter da Tribuna do Norte, para o qual Apolinário era entrevistado (matéria publicada, 24.06.1973), em véspera dele participar do programa Xeque-Mate, fez uma ressalva referente a uma pergunta capciosa, mal formulada proposital (?), “Paulino é capaz de, sem nem usar a ponta do lápis, fazer potências e frações, raiz quadrada, etc. No momento em que dava esta reportagem um dos presentes solicitou para que ele elevasse 5 a sétima potência. Pois muito bem não elevou, como continuando com a conversa, sentiu que a potência elevada não corresponde a sétima, e sim a oitava depois de entrar noutro assunto totalmente diferente”. Assim o sábio agricultor se saia categoricamente de situações inesperadas lhe impostas propositalmente ou não. Reformulando as perguntas errôneas e respondendo-as sem se titubear. Pela sua cultura e inteligência, ainda o repórter diz, “calcula-se que o ‘QI’ dele seja um dos mais elevados e tendo participado de um teste psicológico na UFRN com duração 4 horas.”

Vez por outra, se via-o a perambular pelas redondezas de Apodi, a pé, feito retirante solitário, com chapéu de palha e só com a roupa do corpo. Percorria por estradas e veredas visitando fazendeiros e demais sitiantes, se auto convidando às refeições, como também, para pernoitar. Apolinário gostava de uma rede, embora desapegado da higiene diária contemplava-se com a prática do ócio, sem sombra de dúvida foi um adepto contumaz da filosofia aristotélica.
Apolinário Ferreira de Carvalho, nasceu no sítio Boa Vista município de Apodi em vinte e três de julho de mil novecentos e trinta e um, era filho de Vicente Ferreira de Carvalho e Maria Angélica da Silveira. Faleceu em seis de fevereiro de dois mil e onze com oitenta anos de idade, vitimado pela mazela do câncer prostático. Com o seu desaparecimento no meio de nós, perdeu-se um apodiense que fez registro histórico nos anais da imprensa escrita e televisiva norte-rio-grandense, foi-se também uma mente de talento.

O gênio de Apodi jaz, juntos aos restos mortais dos seus pais, em uma cova modesta no cemitério do povoado Malhada Vermelha, zona rural de Severiano Melo-RN.
Nesse exato momento, cumprindo etapas em outra dimensão, livre das doenças sem curas... espera-se que o tenha redimido de suas posições ateístas, assim sendo, quiçá esteja vagueando como um bom samaritano por todos os recantos do céu, como bem ele gostava de fazer por estas bandas das terras, daqui.

Natal, 19/12/15.
Nuremberg Ferreira de Sousa









     

domingo, 6 de dezembro de 2015

O Vice-Presidente Michel Temer é sócio do golpe

Não se esperaria solidariedade de Temer, mas apenas seu compromisso com a legalidade. Entretanto, com sua deslealdade, ele se tornou sócio do golpe
Michel Temer fez questão de deixar transparecer sua absoluta falta de solidariedade institucional com Dilma, cujo cargo legítimo de Presidente da República está ameaçado pelo processo de impeachment instalado pelo psicopata corrupto que preside a Câmara dos Deputados.
Não se esperaria solidariedade política de Temer com Dilma, mas apenas o compromisso dele com a legalidade e com a democracia. Com sua deslealdade, entretanto, ele se tornou sócio e fiador do golpe.
O afamado Constitucionalista, que é vice-chefe de Estado do Brasil, teria o dever elementar de se solidarizar com a instituição Presidência da República, mesmo que não se solidarizasse com a figura da Presidente.
Ele preferiu, ao invés disso, marcar seu descolamento de Dilma. A renúncia do ministro Eliseu Padilha, um dos seus principais representantes, é uma demonstração estridente deste rumo assumido.
Enquanto Brasília fervilha com os passos iniciais do impeachment que ameaça o governo do qual é vice-presidente, Temer viaja a São Paulo para conchavos com os setores oposicionistas e com o empresariado.
Na bagagem, leva aos tucanos a promessa de não disputar a reeleição em 2018, caso assuma a Presidência uma vez consumada a deposição de Dilma.
Ele é também portador do documento “Uma ponte para o futuro”, a bula programática para o pós-impeachment.
Este texto reflete um liberalismo rudimentar, pré-constituição de 1946: profundamente retrógrado na visão de desenvolvimento nacional e sobre a idéia de nação brasileira. É o programa mínimo para coesionar o reacionarismo nacional na cruzada do retrocesso e da restauração neoliberal-conservadora.
A traição de Temer é chocante. Qualquer análise de boa fé reconhece a total inadmissibilidade da denúncia de impeachment. Não há a menor evidência de crime de responsabilidade cometido pela Presidente da República.
Um Constitucionalista como ele deveria encabeçar a reação a esta decisão absurda do seu correligionário Eduardo Cunha, mas ele optou por se associar aos golpistas.
O governo, os partidos e as organizações do campo democrático-popular e de esquerda e os setores democráticos da sociedade, estão ante o desafio gigantesco de compensar a minoria congressual e frear a marcha golpista com uma ruidosa maioria política e social em defesa da legalidade e da democracia.
A disputa pela sobrevivência do governo será complexa e dramática. Para conseguir maior eficiência política, o Governo e a Presidente terão de ter um desempenho muito superior ao atual, que até agora tem sido muito aquém da exigência histórica.
O governo tem de começar a executar o programa eleito em outubro de 2014, pois do contrário corre o risco de esvaziar a energia e a pulsação popular indispensável para a defesa da democracia e para a resistência ao impeachment.
O impeachment da Dilma é a versão neogolpista que atinge o Brasil em 2015, depois de ter atingido Honduras em 2009 e o Paraguai em 2012. Ocorre, contudo, que o Brasil não é Honduras e nem é o Paraguai, onde as resistências sociais foram ineficazes.
 
É nas ruas que o destino da democracia brasileira será traçado. É das ruas que devem ecoar as vozes estridentes e ensurdecedoras para pressionar o Congresso e bloquear o golpe.
Somente o povo organizado ocupando as ruas e defendendo a democracia, a legalidade, a igualdade, os direitos, poderá deter o golpe e os golpistas e expulsar delas os intolerantes do MBL, do Vem Pra Rua e as entidades congêneres do fascismo que apregoam intervenção militar, disseminam ódio e intolerância e estimulam práticas xenófobas, racistas, sexistas, machistas.
Em paralelo à ampla mobilização popular, deve ser travada uma guerra comunicacional de informação, de esclarecimento e de disputa narrativa dos acontecimentos como nunca antes o PT e o governo conseguiram travar.
Temer é sócio do golpe; um dos seus principais fiadores e o interessado direto no desenlace do impeachment. Com esta escolha, ele assume também a condição de sócio do caos no país, porque ninguém pode prever o resultado da reação democrática de massas à violência que ele co-patrocina com Eduardo Cunha contra o legítimo mandato da presidente Dilma.

FESTA DE CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA


Cadeia da Legalidade renasce 55 anos depois, com Ciro e Dino no papel de Brizola: “Não se pode rasgar a Constituição”; Temer trai Dilma pregando retirada de direitos

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Da Redação
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) e o ex-ministro Ciro Gomes, candidato do PDT ao Planalto em 2018, lançaram hoje em São Luís a versão 2015 da Cadeia da Legalidade.
Em 1961, o então governador Leonel Brizola montou a Cadeia da Legalidade original, utilizando emissoras de rádio para defender a posse de João Goulart como presidente da República depois da renúncia de Jânio — Jango era o vice-presidente constitucional.
A ênfase era então, como hoje, na defesa da Constituição.
Os instrumentos mudaram: Brizola discursava nas rádios, Dino e Ciro anunciaram uma página no Facebook, onde os internautas podem aderir (para fazê-lo, clique aqui) — já eram mais de 10 mil apoiadores em algumas horas.
Em seu discurso, Flávio Dino esmiuçou o artigo 85 da Constituição brasileira, que define os chamados “crimes de responsabilidade”.
Enquanto isso, parece consolidado o desembarque do vice-presidente Michel Temer para aderir ao golpe paraguaioque vai beneficiá-lo diretamente.
Importante frisar que, além de Eduardo Cunha — que deu o pontapé inicial no processo — Renan Calheiros também está sendo investigado na Operação Lava Jato, que pode chegar ao próprio Michel Temer.
Ou seja, o golpe paraguaio tem o potencial de garantir impunidade aos principais líderes do PMDB.
Temer ascenderia ao Planalto com o programa Uma ponte para o Futuro, que retira direitos sociais conquistados na Constituição de 1988.
Portanto, está em andamento um duplo golpe constitucional.

Bresser Pereira: 'Impeachment da Dilma já nasce morto'

Luiz Guilherme, O Estado de São Paulo

O ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira acredita que a presidente Dilma Rousseff vai superar o processo de impeachment. “Esse pedido de impeachment nasce de uma chantagem feita pelo Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados), e é moralmente muito prejudicado”, afirma. Na avaliação dele, quando Dilma superar o atual momento turbulento, deve se beneficiar de maior governabilidade. “Acredito que (esse processo) vai terminar bem para a Dilma e ela vai poder governar mais tranquilamente”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.
Como o sr. viu esse movimento do Eduardo Cunha? 
Primeiro, em relação ao impeachment, eu acho que ele nasce morto. Já sabíamos que ele não tinha base jurídica razoável. A presidente tem muitos defeitos e dificuldades, mas não cometeu crime nenhum. É uma mulher de alta dignidade. Esse pedido de impeachment nasce de uma chantagem feita pelo Eduardo Cunha e, portanto, é moralmente muito prejudicado. Segundo, eu nunca acreditei que o impeachment viesse a acontecer.
Por que?
Porque o Brasil é uma democracia absolutamente consolidada. O Brasil já é um país capitalista. Já fez a sua revolução capitalista, tem uma grande classe de empresários, de classe média, uma grande classe trabalhadora. E as pessoas participam da renda nacional através do mercado e não do controle do Estado. Nas sociedades pré-capitalistas, você precisa mandar no Estado para ter vantagens.
E qual será o impacto dessa decisão na economia?
A crise foi agravada quando, diante da baixa popularidade da presidente, algumas pessoas e a oposição – a meu ver, de maneira irresponsável – resolveram discutir a ideia do impeachment. Agora a coisa está iniciada. Acredito que vai terminar bem para a Dilma e ela vai poder governar mais tranquilamente. Está muito difícil governar o Brasil porque estamos numa recessão muito grave e profunda.
O sr. acha que, se a Dilma passar por esse processo, ganha mais condição de governabilidade e as medidas do ajuste podem ser aprovadas?
Eu acho que sim. O Congresso vai se sentir melhor. Eles já fizeram uma bela coisa (aprovação da meta fiscal que prevê déficit de R$ 119 bilhões). O Congresso já se deu conta de que estamos todos numa crise e, numa hora como essa, é fundamental que a sociedade se una. É por isso que eu entendo que esse impeachment vai morrer. Tentar fazer um impeachment é criar uma comoção social, muita briga. Se for para rua, eu, que não vou para rua por nada, vou para protestar porque o impeachment é uma ameaça para a democracia brasileira.
O sr. acha que o País deixa a recessão?
Eu acho que o País vai sair dela porque o mercado já fez o ajuste cambial. Com essa taxa de câmbio a R$ 3,80, as empresas competentes se tornaram competitivas. E, com uma taxa de câmbio a R$ 2,50, que é a taxa que vigia na média dos últimos anos, não havia possibilidade de se investir nelas. Hoje, estamos passando por uma fase intermediária porque, quando há uma depreciação, o primeiro impacto deixa todos mais pobres em dólares, o que faz todo mundo diminuir o consumo, e as empresas restringem a produção. Mas, quando as empresas percebem que se tornaram competitivas, elas passam a investir e a economia começa a sair da crise.
O sr. imagina quando a recuperação econômica virá?
A recuperação vem no segundo semestre do ano que vem. Nós vamos ter sinais de aumento de investimento das empresas, da indústria, basicamente.
Com essa possível retomada, o sr. acha que a situação fiscal do País melhora?
A situação melhora relativamente porque o governo conseguiu segurar algumas despesas. Mas o essencial é que a economia volte a crescer.

Assembleia do SINTE aprova moção de apoio à vereadora Amanda Gurgel

Conforme deliberado na última assembleia dos professores de Natal, o SINTE/RN enviou para o presidente da Câmara Municipal, vereador Franklin Capistrano, uma moção de apoio à vereadora Amanda Gurgel.
No documento, a direção do Sindicato repudia a postura do Vereador Júlio Protásio. Recentemente, Júlio acusou a professora Amanda de descumprir uma promessa de campanha e utilizar integralmente seu salário de vereadora, bem como usar a verba de gabinete. Na ocasião, Júlio Protásio disse ainda que à vereadora nunca deu aula e “ficava encostada numa biblioteca”.
No ofício, o SINTE afirma que as acusações direcionadas a Amanda Gurgel são caluniosas e difamatórias, e também atingem todo o conjunto de trabalhadores, em especial os profissionais da educação pública.
A direção pede ainda que os parlamentares votem os projetos que beneficiem os trabalhadores neste momento de crise econômica.
Confira o Ofício na íntegra AQUI.

SINTE/RN defende interesses da categoria em audiência do Plano Estadual da Educação

O investimento na educação, a implementação do conceito de identidade de gênero e a valorização profissional foram os temas destacados pelo SINTE/RN na Audiência Pública sobre o Plano Estadual de Educação. A audiência aconteceu na tarde desta quinta-feira (03), no Plenarinho da Assembleia Legislativa.
De acordo com a coordenadora geral do SINTE/RN, professora Fátima Cardoso, o Sindicato solicitou a retirada das emendas que alteram o projeto de lei que trata da aplicação do PIB na educação pública. O SINTE também propôs a exclusão das emendas que retiram do Plano de Educação o conceito de identidade de gênero e etnia.
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Fátima também disse que o Sindicato fez uma defesa em prol da implementação das metas 17 e 18 do PNE, que estabelecem a equiparação salarial e os planos de carreira, respectivamente.
Ela explica que o SINTE tem uma série de discordâncias junto ao texto do Plano. Uma delas diz respeito ao conceito de meritocracia neoliberal. Isto porque tal conceito não leva em consideração alguns fatores fundamentais, como as condições de trabalho e a realidade social do profissional: “Esse conceito não mede o real mérito do profissional”, afirmou.
A proposta do Plano de Educação apresentada é fruto do pensamento de várias organizações, inclusive o SINTE. Entretanto, Fátima reitera que o Sindicato não concorda com todo o conteúdo do Plano, uma vez que ele foi elaborado a partir da reunião de várias representações dos setores público e privado da sociedade.
A coordenadora avisa que o Sindicato vai solicitar aos deputados a retirada de todos os pontos que diferem da “construção coletiva do plano”.

domingo, 20 de setembro de 2015

Mino Carta: FHC comprou votos, comandou as privatizações, praticou estelionato eleitoral, quebrou o Brasil três vezes

FHC
Eterno golpismo
Miúda reflexão sobre impeachment, democracia e Estado de Direito no país da casa-grande
Na esteira do Cruzado 1, em outubro de 1986 José Sarney  cometeu estelionato eleitoral logo após a vitória peemedebista nas eleições para os governos estaduais, Congresso e Assembleias, ao lançar o Cruzado 2 e arrastar o País para uma crise econômica de grande porte. A situação, complicada pelo fracasso da moratória do começo de 87, perdurou até o fim do mandato de Sarney.
Nem por isso se cogitou, em momento algum, do impeachment do ex-vice-presidente tornado presidente pela morte de Tancredo Neves,  em claro desrespeito a qualquer regra do jogo pretensamente democrático.
Ao lançar o olhar além-fronteiras, temos o exemplo recente de Barack Obama, atingido em cheio pela explosão da bolha financeira de 2008, a mergulhar os Estados Unidos em uma crise de imponentes proporções. Obrigado a enfrentar a queda progressiva do valor do dólar, assoberbado pelas habituais pressões e ameaças das agências de rating, vítima de índices de aprovação cada vez mais rasos, Obama acabou sem o apoio da maioria parlamentar. Nem por isso sofreu o mais pálido risco de impeachment, mesmo porque hipóteses a respeito seriam simplesmente impensáveis aos olhos dos parlamentares americanos, mesmo republicanos.
Se a ideia já teve no Brasil razão de vingar, ao menos de ser aventada, foi em relação a Fernando Henrique Cardoso: comprou votos para se reeleger e comandou privatizações que assumem as feições inequívocas das maiores bandalheiras-roubalheiras da história pátria, realizadas às escâncaras na certeza da impunidade. Praticante emérito do estelionato eleitoral, fez campanha para a reeleição à sombra da bandeira da estabilidade para desvalorizar o real 12 dias depois da posse para o segundo mandato.
FHC é recordista, conseguiu quebrar o Brasil três vezes. Ao cabo, entregou a Lula um país endividado até a raiz dos cabelos e de burras vazias. Ao longo da sua trajetória presidencial, jamais se imaginou a possibilidade do seu impeachment.
O príncipe dos sociólogos, outrora encarado como elemento perigoso por quantos hoje o veneram, tornou-se xodó da mídia nativa e dos senhores da casa-grande. Favor irrestrito e justificado: nunca houve alguém tão capacitado para a defesa dos interesses do reacionarismo na sua acepção mais primitiva.
Hoje em dia, FHC arca com o papel de oráculo da política brasileira com invulgar destemor. Tudo dentro dos conformes, a desfaçatez, a hipocrisia e o oportunismo tucanos não têm limites. O enredo é típico, assim como já é clássico o caso de Fernando Collor,  que se retirou antes de sofrer impeachment. Exemplar entrecho, de todos os pontos de vista, que vivi de perto por mais de dois anos, quando dirigia a redação de IstoÉ.
Para mim a história começa 25 anos atrás. O então repórter da IstoÉ Bob Fernandes tocaia por dois meses o operador do presidente, PC Farias. Chega a hospedar-se por algum tempo no apart-hotel, onde em São Paulo vive o tocaiado. Enfim a revista publica uma reportagem de capa sobre as façanhas do PC, em que se relata tudo aquilo que o irmão de Collor diria a Veja um ano e meio depois, com exceção dos supositórios de cocaína.
Eis aí, neste roteiro, um aspecto ineludivelmente brasileiro. Quando da reportagem, a mídia cuidou de não lhe dar eco e seguimento, ao contrário do que se daria em qualquer país democrático e civilizado.
Até então, a casa-grande suportava que o presidente cobrasse pedágios elevadíssimos em relação a obras feitas e ainda assim o imaginava adequado ao cargo de propiciador de benesses. Fora a Veja, aliás, que popularizara a definição de Collor como “caçador de marajás”.
Com o tempo, a cobrança collorida passou a ser considerada insuportável e se entendeu que valeria submeter o cobrador a um aperto sério, embora comedido. Foi a hora da entrevista do irmão, esta sim imediatamente repercutida.
A CPI convocada para cuidar do caso moeu meses de sessões inúteis à falta de provas. Não fosse IstoÉ, daria em nada. A sucursal de Brasília da revista, dirigida por João Santana, foi capaz de demonstrar a ligação entre a Casa da Dinda e o Palácio do Planalto, e o encaminhamento do impeachment foi inevitável.
A Globo prontificou-se a chamar para as praças manifestações bastantes parecidas àquelas que pipocam de dois anos para cá, frequentadas, sobretudo, por burguesotes festeiros, enquanto a Veja ganhava o Prêmio Esso de Jornalismo, remota invenção alienígena destinada a consagrar o jogo corporativo, festival do compadrio da mídia nativa.
Há quem diga que estamos a transitar por uma conjuntura similar àquela, e se engana, está claro, por hipocrisia ou ignorância. O impeachment de Dilma Rousseff é totalmente impossível à luz da Constituição. Se quiserem mandar as aparências às favas, seria golpe mesmo, conforme conhecimento até do mundo mineral. Mas golpismo é inerente ao país da casa-grande. Editoriais, colunas, artigos e reportagens dos jornalões recordam, cada vez mais, os textos de 51 anos atrás.

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