sábado, 14 de abril de 2012

A política, a polêmica e o sentido das palavras

Nada mais natural do que a divergência de opiniões, em qualquer esfera da vida – na política, sobretudo. Como bem ensina a sabedoria popular, “os dedos das mãos não são iguais”. E quando se põe em causa o poder, em qualquer uma das suas instâncias, a polêmica é inevitável – mesmo entre correntes políticas e militantes do mesmo campo de forças.

Se tudo fosse simples demais, tão claro como a luz do dia, certamente não haveria sequer a necessidade da política como modalidade de relação entre as pessoas. Daí se ter que encarar com naturalidade a disputa de ideias e projetos, no fundo reflexos de interesses de classe ou de segmentos de classe, explícitos ou velados.

Mas a vida tem ensinado que a boa polêmica como meio de expressão de propostas contraditórias há que se desenvolver no leito da convivência democrática. Por respeito mútuo e em homenagem aos verdadeiros interessados - a população, que decide através do voto.

Nesse sentido, a palavra se faz preciosa: aproxima e une ou divide e distancia. Quando mal empregada, instrumento do ataque pessoal ou de julgamentos depreciativos ou preconceituosos, em nada ajuda a esclarecer, antes contribui para rebaixar o debate e para gerar fissuras e sequelas difíceis de reparar.

Miguel Arraes, em mais de meio século de atuação política contínua, nos deu um belo exemplo: jamais atacou nenhum oponente pessoalmente, dirigindo-lhes impropérios e desqualificando-os. Em dezessete anos de militância comum, em apenas uma única ocasião o vi referir-se nominalmente a um adversário: Jarbas Vasconcelos, a quem vaticinou o “caminho da perdição” quando se atrelou às forças conservadoras. E nos termos em que o disse não se pode caracterizar como ataque pessoal.

Aproximamo-nos das convenções partidárias com vistas ao pleito de outubro, que acontecerão em junho. No seio de partidos e frentes partidárias acelera-se a discussão de projetos e nomes. Pretensões em geral legítimas se assanham em busca dos apoios indispensáveis. Em alguns casos, o limite entre o razoável e o descontrole mostra-se tênue, correndo-se o risco de rupturas irremediáveis, agora e em médio prazo. O que é ruim sob todos os títulos, pois discrepâncias momentâneas não podem, nem devem, implicar impossibilidade de futura conjugação de esforços. Afinal, alianças se dão em torno de objetivos de curto e médio prazo, ressalvadas as diferenças programáticas ou ideológicas. É assim aqui e em qualquer parte do mundo.

Dom Helder Câmara, à margem das lides políticas, produziu uma frase que deve inspirar os mais exacerbados, na busca da tolerância: “Se tu diverges de mim, tu me enriqueces.” Que assim seja.


Luciano Siqueira

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